Peguei o batom na esperança de oferecer alguma beleza ao meu rosto enrugado. Ao olhar-me no pequeno espelhinho lembrei-me de meu primeiro batom. Como eu pulara de felicidade no dia em que pintara os lábios e descobrira que estava me tornando uma adolescente... Ao mesmo tempo, as lembranças vinham escassas, quase perdidas na minha memória.
Pelo pequeno espelhinho, vi um casal de jovens atrás da mesa do restaurante onde eu estava sentada. O olhar apaixonado dos dois me entristeceu num primeiro momento, para depois me alegrar. Em um canto afastado, algumas garotas cochichavam. Mais ao lado, um homem de aparência estranha parecia querer esconder o rosto com o chapéu. Por um momento, tive a impressão que o conhecia, mas meus pensamentos evitavam que eu me fixasse muito tempo em alguma coisa. Estranhamente, eu via minha vida inteira passar pela minha frente. E, da mesma forma, um vazio enorme cortar meu ser. Sentia que nada mais valia a pena. Era como se tudo o que tivesse feito e vivido não tivessem significado algum.
Voltei ao batom e vi que estava borrado. Fui limpando delicadamente as beiradas da boca enquanto me distraía novamente com minhas antigas memórias de jovem. Aproveitei para borrifar um pouco do meu perfume de rosas. Com a minha aparente decadência, eu fazia de tudo para me firmar nos acontecimentos antigos. Veio a lembrança do primeiro beijo, da primeira vez em que tomara chuva em pleno frio, do primeiro filho e das primeiras grandes responsabilidades e brigas. Foi quando ele me veio à mente. Por que, meu Deus, ele era tão jovem? Por que eu haveria de estar sofrendo tanto? Afinal, ele era apenas mais novo do que eu e mais nada. Eram muitos e muitos anos, isso é fato. Mas por que raios eu o encontrara logo no fim da minha vida? Eu pensei que a vida deveria ser mais justa. A felicidade parecia mais valorosa quando eu estava triste.
Enquanto eu me distraía em tantos pensamentos, vi que ele entrava no lugar. Ele era tão belo, tão cheio de vida. Estremeci ao ver ao olhar enfurecido das jovens ao canto do restaurante quando ele me beijou. Tentei disfarçar com um sorriso, mas as lágrimas queriam e faziam de tudo para pular. Coloquei a mão sobre o rosto jovem do homem-garoto. Ele sorriu e soltou um pequeno gemido ao ver meus olhos vermelhos. Fiquei alguns segundos olhando para ele, admirando a vida que eu já não tinha mais. Fui direto ao assunto que me atormentava, afinal, eu nunca havia sido uma mulher de rodeios.
- Me diga, Cristian, por que não te encontrei antes?
- O que há, querida, por que essa pergunta agora?
- Responda-me por qual motivo a vida é tão injusta? Por que ela esperou que eu tivesse filhos e chegasse a velhice antes de te conhecer?
- Não sei... O que importa é que nos amamos. O que te aconteceu? Que perguntas são essas? Você não estava assim da última vez que nos encontramos.
- Aconteceu isso – disse mostrando disfarçadamente para as jovens olhavam para Cristian – Você é muito novo para mim. Ontem mesmo briguei com meu filho por causa disso. Ninguém quer mais me ver. Todos me criticam. O único que me sobrou foi o dinheiro. Até meu marido – e engasgou vendo o olhar de Cristian – até meu ex-marido anda nos ameaçando.
- Essa história de novo logo agora? Deixe de ser boba.
- Como eu queria não te amar...
- Que tal mudarmos de assunto? Esquece isso, vai.
- E se você não me amar como eu acredito? Não acha melhor terminarmos?
- Você está louca, querida? Eu já fiz algo que te decepcionasse antes?
- Não, mas de repente seja melhor eu sair daqui... e ir para casa me entupir dos meus remédios para velhice.
- Para com isso, por favor.
- Você ainda tem muito por viver. Muito...
Não segurei as lágrimas. O homem-garoto tocou meu rosto delicadamente, limpando do rosto a maquiagem desfeita. Ele era, de fato, o homem que eu havia sonhado conhecer toda a minha vida.
- Vamos, limpe esse rosto. Não quero mais ficar aqui. Vamos embora.
Peguei novamente o espelhinho para limpar-me. Novamente tive a impressão de que o homem sentado atrás me conhecia e me fitava. Olhava pra mim como se me conhecesse há séculos. E, quando percebi, já era tarde. Ele levantou-se da cadeira com tanta rapidez que apenas pude ver o brilho da arma reluzindo. Era meu ex-marido.
- Oh, não! Pare! – disse eu me virando para o homem enquanto todos no restaurante viam a minha expressão apavorada.
- Eu te disse tantas vezes que esse garotinho só quer se aproveitar de você! E nada vai me impedir de acabar com isso. Nada!
- Pare agora! - ameacei – Você não pode fazer isso. Não é seu o poder de decidir quem vive... Nã...
Mas ele atirou. Vi toda minha passar em milésimos de segundos. E vi o clarão da bala ir em direção ao homem-garoto. Sem pensar em mais nada, coloquei-me na frente. Senti o ardor da bala em entrando meu peito, mas, ao mesmo tempo, uma sensação de leveza que há muito tempo não sentia. A dor cortava meu ser, enquanto meus sentidos se misturavam com as cores de toda a minha existência.
- Um médico! – gritou o homem-garoto desesperado. – Pelo amor de Deus, um médico!
Os olhares de todos no botequim esfarrapado voltaram-se para mim. Minha energia ia se esgotando, esvoaçando sem que eu pudesse fazer absolutamente nada. Vi o homem-garoto correndo para todos os lados em busca de ajuda enquanto o homem que atirara se punha ajoelhado no chão ensangüentado.
- Por que você fez isso? – ele perguntou.
- Se ainda me ama como diz, deixe o garoto ir embora. A culpa não é dele. De quem é a culpa de nos apaixonarmos pelas pessoas erradas?
- Por que você fez isso? – ele perguntou me sacudindo – Por quê?
- Eu não fiz nada além de viver... E não me arrepender do que fiz...
Quanto mais ele perguntava e me sacudia, menos força eu tinha. Menos meu coração batia. Eu mais parecia uma boneca de pano levada para onde e como quisessem. Antes de desfalecer por completo, porém, ele colocou a arma em sua cabeça e seu sangue misturou-se junto ao meu no chão. Olhei pela última vez para aquele com quem eu passara a vida inteira e também para o homem-garoto desesperado pedindo por uma ajuda. A minha vida tinha sido, no mínimo, esquisita. No chão, meu espelho e meu batom na poça formada pelo perfume de rosas, avermelhado pelo sangue. Olhei novamente as rugas em meu rosto pelo canto do espelhinho rachado. Eram os famosos 15 minutos chegando no momento mais sublime da minha vida. De repente, não sentia mais dor, não sentia mais nada. Olhei pela última vez para o que eu havia me tornado até que meu coração esvoaçou rumo ao infinito.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
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