quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Aqueles olhos amarelos


Fechei os olhos e fui caminhando lentamente pelos ladrilhos da rua até esbarrar na parede do enorme edifício. Eu gostava de imaginar como seria se eu tivesse nascido cego. Queria perceber as coisas de forma diferente e não poder enxergar os defeitos exteriores das pessoas. O mais engraçado de tudo isso era que todos adoravam os meus olhos amarelos. Sempre me perguntavam de quem eu havia herdado esses olhos e eu nunca pudera responder. Olhei a minha sombra na parede, formada pela luz do fim da tarde. As minhas perninhas tortas ficavam ainda mais desengonçadas na minha sombra. Sentei-me com dificuldade, afinal eu havia estado praticamente a tarde inteira em pé, ao lado dos carros.

Há alguns metros de mim, uma mulher se esgueirava entre os automóveis, zanzando com uma menina de uns três anos nos braços. A criança sorriu e balançou as pequenas mãozinhas para mim. Mandei-lhe um beijo e ela escondeu-se envergonhada na blusa da mulher. O sinaleiro abriu. Os carros passaram. Eu imaginava como eram todas as vidas que se passavam pela minha frente a cada sinal que se abria. A mulher veio resmungando até mim. Ela olhou e reclamou: "seu moleque imprestável! Mal agüenta ficar em pé. Pelo menos essas suas pernas malditas conseguem me trazer mais dinheiro do que eu com a Laura nos braços. Vê se fica bom longo porque daqui a pouco anoitece e a gente tem que conseguir mais dinheiro".

Abaixei a cabeça, envergonhado. No alto dos meus dez anos de idade, seria muito vergonhoso deixar as lágrimas caírem. Ela fazia questão de me dizer que havia me achado no lixo, no meu primeiro ano de vida e que minha mãe verdadeira havia feito isto por causa da minha deficiência. Já a Laura ficaria conosco por alguns dias, pois uma amiga a tinha "emprestado" para conseguir ficar em paz por um tempo e ainda conseguir um dinheiro com isso.

O sinal fechou. Ela voltou para lá, como uma minhoquinha, desfilando entre os carros e balançando a caneca. Eu estava torcendo para que a noite demorasse a cair e a mulher ficasse até mais tarde pedindo dinheiro, pois nesse dia a loja de brinquedos da esquina do sinal inauguraria a sua árvore de natal. As luzes de natal pareciam ter um brilho especial, algo que eu nunca iria conseguir compreender na minha vida. Levantei-me com dificuldade por causa da dor nas pernas. Estava decidido a entrar na loja custasse o que fosse. Sempre me seguravam na porta, achando que eu iria roubar algo. Como, se eu mal podia correr? Enchi o peito de ar e segui andando. Aproveitei a distração dos guardas para entrar pelo canto da porta. Comecei a passear pelas prateleiras, maravilhado com cada um daqueles brinquedos. E uma dor cortou meu ser. Quem eu era? Será que algum dia teria algum desses brinquedos?

Mesmo apesar de tão novo, eu era lúcido o suficiente para saber que as minhas chances de algum dia poder ter um daqueles brinquedos ou mesmo de vir a dar um daqueles para meu filho era muito pequena. Abaixei os olhos novamente, passando a mão pelo pequeno boneco. De repente, ouvi uns passinhos apressados, de um menino que vinha correndo em minha direção: "é esse boneco, mãe! É esse que eu quero de Natal!". A felicidade do menino era tamanha que cheguei a me comover. E ele olhou nos meus olhos. Tive um susto muito grande. Era como olhar para um irmão mais novo. Aqueles mesmos olhos. Aquela mesma expressão de medo.

O menino ficou ali, parado, olhando para mim. A mãe dele veio logo atrás, procurar o tal boneco. E o susto se espalhou entre nós três. Seis olhinhos iguais se analisando, se olhando. Ela levou as mãos à boca e se emocionou, afinal, ela, muito mais do que eu sabia bem quem eu era. Talvez nunca devesse tê-la encontrado, talvez eu nunca descobrisse quem era ela se não fossem esses olhos. Logo, caí na realidade, com minha madrasta me puxando para fora da loja. O pavor nos olhos dela, ao ver a outra mulher e o menino, foram os iguais aos nossos, pouco antes que ela entrasse lá para me buscar. Os segundos pareceram durar minutos, até que um guarda puxou não somente a mim, mas também minha madrasta e Laura, que ainda estava em seu colo.

A mulher dos olhos amarelos levantou uma das mãos e pediu ao guarda que nos soltasse. As lágrimas começaram a cair, como larvas de um vulcão que acabava de explodir. Olhos que choravam gotas de calor. Ninguém entendia nada, mas nós sim. Poderíamos dizer muitas palavras, mas nada poderia expressar aquele momento. Minha madrasta continuou a me puxar e os meus olhos encontraram os da mulher até que eu não pudesse mais vê-la. Nesse momento, pouco me importavam os tapas que eu estava ganhando de minha madrasta. Mais nada me importava.

Sentei-me novamente recostado no muro, desiludido, irritado, comovido, chocado... As reações vinham lentas, os pensamentos se embaralhavam. Senti aqueles mesmos passinhos vindo na minha direção e duas mãozinhas que me estendiam um brinquedo, o mesmo que eu acabara de ver na loja. Levantei o rosto encharcado para ver os olhos do menino. Ele passou as mãos pelo meu cabelo e disse que o boneco era meu. As lágrimas desciam sem distinção, lavando tudo o que existia dentro de mim.

O menino foi se distanciando até encontrar a mulher de olhos amarelos, que também chorava na esquina. E eu os vi ir embora. Simples e puramente, irem embora. Não tive um movimento. Nada, nada. Apenas fiquei ali, sem respostas, chorando escondido. Respostas que a vida acabava de me oferecer de forma diferente. Talvez algum dia eu me arrependa... nunca mais vi aqueles olhos amarelos... nunca mais...