Eu vinha andando cansada pela terra seca. Já não tinha mais noção de tempo e de espaço. A morte parecia me sorrir quando avistei uma casa logo à frente. Eu não tinha mais forças. Sentia como se meu corpo inteiro doesse. Acabei por deitar-me no chão esquentada pelo sol. Minhas patas estavam ressecadas, não conseguia mais abrir os olhos.
Percebi que os donos da casa estavam chegando. Olhavam-me de longe receosos. Meus pêlos amarronzados estavam empoeirados, envelhecidos. Tive medo de que me matassem, mas não conseguia me mover. Se eu pudesse falar, acho que apenas pediria piedade, amor. A fome era grande, a sede maior ainda. Passados alguns minutos, me trouxeram água e comida. Era esquisito para mim. Não tive dúvidas em comer e beber. A sensação era de alívio. Fiquei simpatizada a essa família. Fui me aproximando como quem não queria nada. O sol ainda estava forte. Resolvi me deitar novamente. Não tinha sequer forças para latir, nem mesmo chorar.
Aos poucos as imagens de minha vida passaram por minha cabeça em fração de segundos, mas eram mais de cinco séculos... Lembrei de como tudo começara. Lembrei daquele maldito dia. Era 1517, na Europa. Uma época em que a magia e a bruxaria estavam em seu apogeu. Era uma pobre camponesa sem família. Tinha 27 anos e muita vida por viver. Uma vida que mudou radicalmente. Um dia, fui violentada por três soldados. Dentro de mim, havia uma mistura de raiva e de ódio. Resolvi procurar a justiça da época. Mas, simplesmente me disseram que isso era normal. Eu não achava isso normal e eles haveriam de pagar por isso.
Pensei durante dias em uma vingança. Lembrei de uma senhora onde eu morava conhecida como bruxa. Fui até lá. Chegando a casa dela, me assustei, pois esperava uma mulher feia e rançosa. Mas não era. Além disso, acolheu-me bem, com carinho. Ela explicou que me ajudaria, mas que um dia precisaria de mim. Disse-lhe que faria qualquer coisa por vingança. Então, ela pegou um pedaço de pão e colocou algo dentro parecido com uma pimenta. Em seguida espetou agulhas e embrulhou em um pano. Explicou-me que eu deveria enterrar na floresta, chamar o espírito da natureza e mentalizar os soldados antes do sol nascer. A velha disse, ainda, que eu era responsável por isso.
Três dias depois, fiquei sabendo que dois dos soldados haviam brigado e se matado e outro enlouquecido e se jogado do penhasco. Fiquei feliz com o resultado e voltei a casa dela. Pedi para ser bruxa também. Ela explicou que isso me implicaria muitas coisas. Eu teria que fazer pactos com espíritos das profundezas, mas possuiria tudo o que quisesse. Tudo, menos paz de espírito. Aceitei, pois não tinha nada a perder. A vida não me reservaria maiores surpresas como uma camponesa.
A noite de minha iniciação chegara. Acredito que estávamos em um local fechado, abaixo da casa da bruxa. Havia mais de dez mulheres. Tive de fazer um pacto de ajuda mútua e todas beberam misturas estranhas. Vi que dentro do caldeirão existiam ossos humanos, sangue de morcego e de todas as bruxas. Tive de lutar para não vomitar. Elas pareciam loucas, falavam línguas estranhas e clamavam por seres estranhos. Agradeci quando chegou o fim da cerimônia. Estava sentindo um frio estranho, um frio de morte. Vi velas, crucifixos e um bicho morto. Acabei adormecendo ali mesmo. Quando acordei não vi mais ninguém além da anciã...
Passaram três anos e sete dias desde o dia da cerimônia. Eu já havia aprendido o que ela havia me ensinado. A velha bruxa disse que estava morrendo e que eu deveria fazer o mesmo que ela fizera antes de morrer e que se possível passasse os meus conhecimentos para uma mulher virgem. Pediu que eu nunca revelasse o local onde fosse enterrada. No dia do enterro, que seria em uma caverna na floresta, reencontrei todas as bruxas do dia de minha iniciação. Elas estavam felizes. A grande bruxa foi enterrada viva, mas o corpo apodreceu rapidamente e um cheiro ruim invadiu o ambiente. Seres estranhos parecidos com lobisomens apareceram. As bruxas arrancaram o coração de um homem e todas tiveram que comer. Percebi que o último pedaço fora entregue a um animal com feições diferentes, que tinha raciocínio. Descobri depois que era o grande mestre. Um bruxo já morto que conseguia se materializar. Novamente, voltei a me sentir mal. Mas logo terminava a cerimônia.
Anos se passaram. Mudei-me para uma outra cidade. As pessoas me procuravam e me pagavam bem. Muitos espíritos me perseguiam em meio a tudo isso. Para me proteger, coloquei o espírito de dois dos soldados em cachorros. Um dia, houve a caça às bruxas. Fui apedrejada e queimada viva. Passei longos séculos sofrendo em outra dimensão, onde não conseguia fazer nada porque era perseguida por espíritos que eu havia atormentado. Passei séculos clamando por perdão. Foi uma das épocas mais difíceis de minha vida. Eu nunca havia acreditado em Deus, mas sabia que já era hora de mudar isso. Do contrário, não sairia dali. As forças superiores me ouviram e decidiram me oferecer uma chance. Disse que aceitaria qualquer coisa para sair dessa situação.
Passaram sete anos em que fui preparada para retornar como cachorro, em vistas ao o que eu fizera com os soldados. Sofri muito nesse tempo e tive de passar por coisas inimagináveis. Literalmente, tive de agüentar a vida como um cachorro de rua... e perder meus filhotes. Lembro que quando era bruxa eu queria ter filhos, mas não podia por ser o que eu era. Sofri, passei frio e fome. Nunca me revoltei, mas sempre questionei isso. Questionei se eu havia cometido tantos erros para sofrer tanto.
Até que, um dia, resolveram me oferecer luz e me mandaram por esse caminho empoeirado...
Agora estou aqui, perdida e confusa...
Percebi que estava anoitecendo e era hora de procurar algum lugar. Comecei a aproximar-me da casa e da família. Passaram alguns dias e eles me ofereceram abrigo, comida e água. Eu já estava ficando valente, afugentando quem não pertencia à casa. Eu não sabia como retribuir o carinho – era como se eu fosse novamente um ser humano. A luz e o amor começaram a me invadir. Nunca acreditei na existência de tais sentimentos.
Era estranho receber tanto amor sem oferecer nada em troca, absolutamente nada. Uma revolução acontecia dentro de mim. Eu, que durante séculos só conhecera o ódio, começava a conhecer o amor em dias. Ofereciam-me amor sem nada em troca. Nada em troca... De uma forma pura, simples, inocente, de um jeito que eu nunca havia imaginado. Durante cinco séculos, nada me tocara de semelhante maneira. Essa era a chance para a minha mudança. Essa era a chance para o recomeço. Minha vida poderia acabar nesse dia, mas tudo o que aprendera em tão pouco tempo havia sido suficiente para acreditar. Ofereceram-me amor sem nada em troca...
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Envelhecer
Peguei o batom na esperança de oferecer alguma beleza ao meu rosto enrugado. Ao olhar-me no pequeno espelhinho lembrei-me de meu primeiro batom. Como eu pulara de felicidade no dia em que pintara os lábios e descobrira que estava me tornando uma adolescente... Ao mesmo tempo, as lembranças vinham escassas, quase perdidas na minha memória.
Pelo pequeno espelhinho, vi um casal de jovens atrás da mesa do restaurante onde eu estava sentada. O olhar apaixonado dos dois me entristeceu num primeiro momento, para depois me alegrar. Em um canto afastado, algumas garotas cochichavam. Mais ao lado, um homem de aparência estranha parecia querer esconder o rosto com o chapéu. Por um momento, tive a impressão que o conhecia, mas meus pensamentos evitavam que eu me fixasse muito tempo em alguma coisa. Estranhamente, eu via minha vida inteira passar pela minha frente. E, da mesma forma, um vazio enorme cortar meu ser. Sentia que nada mais valia a pena. Era como se tudo o que tivesse feito e vivido não tivessem significado algum.
Voltei ao batom e vi que estava borrado. Fui limpando delicadamente as beiradas da boca enquanto me distraía novamente com minhas antigas memórias de jovem. Aproveitei para borrifar um pouco do meu perfume de rosas. Com a minha aparente decadência, eu fazia de tudo para me firmar nos acontecimentos antigos. Veio a lembrança do primeiro beijo, da primeira vez em que tomara chuva em pleno frio, do primeiro filho e das primeiras grandes responsabilidades e brigas. Foi quando ele me veio à mente. Por que, meu Deus, ele era tão jovem? Por que eu haveria de estar sofrendo tanto? Afinal, ele era apenas mais novo do que eu e mais nada. Eram muitos e muitos anos, isso é fato. Mas por que raios eu o encontrara logo no fim da minha vida? Eu pensei que a vida deveria ser mais justa. A felicidade parecia mais valorosa quando eu estava triste.
Enquanto eu me distraía em tantos pensamentos, vi que ele entrava no lugar. Ele era tão belo, tão cheio de vida. Estremeci ao ver ao olhar enfurecido das jovens ao canto do restaurante quando ele me beijou. Tentei disfarçar com um sorriso, mas as lágrimas queriam e faziam de tudo para pular. Coloquei a mão sobre o rosto jovem do homem-garoto. Ele sorriu e soltou um pequeno gemido ao ver meus olhos vermelhos. Fiquei alguns segundos olhando para ele, admirando a vida que eu já não tinha mais. Fui direto ao assunto que me atormentava, afinal, eu nunca havia sido uma mulher de rodeios.
- Me diga, Cristian, por que não te encontrei antes?
- O que há, querida, por que essa pergunta agora?
- Responda-me por qual motivo a vida é tão injusta? Por que ela esperou que eu tivesse filhos e chegasse a velhice antes de te conhecer?
- Não sei... O que importa é que nos amamos. O que te aconteceu? Que perguntas são essas? Você não estava assim da última vez que nos encontramos.
- Aconteceu isso – disse mostrando disfarçadamente para as jovens olhavam para Cristian – Você é muito novo para mim. Ontem mesmo briguei com meu filho por causa disso. Ninguém quer mais me ver. Todos me criticam. O único que me sobrou foi o dinheiro. Até meu marido – e engasgou vendo o olhar de Cristian – até meu ex-marido anda nos ameaçando.
- Essa história de novo logo agora? Deixe de ser boba.
- Como eu queria não te amar...
- Que tal mudarmos de assunto? Esquece isso, vai.
- E se você não me amar como eu acredito? Não acha melhor terminarmos?
- Você está louca, querida? Eu já fiz algo que te decepcionasse antes?
- Não, mas de repente seja melhor eu sair daqui... e ir para casa me entupir dos meus remédios para velhice.
- Para com isso, por favor.
- Você ainda tem muito por viver. Muito...
Não segurei as lágrimas. O homem-garoto tocou meu rosto delicadamente, limpando do rosto a maquiagem desfeita. Ele era, de fato, o homem que eu havia sonhado conhecer toda a minha vida.
- Vamos, limpe esse rosto. Não quero mais ficar aqui. Vamos embora.
Peguei novamente o espelhinho para limpar-me. Novamente tive a impressão de que o homem sentado atrás me conhecia e me fitava. Olhava pra mim como se me conhecesse há séculos. E, quando percebi, já era tarde. Ele levantou-se da cadeira com tanta rapidez que apenas pude ver o brilho da arma reluzindo. Era meu ex-marido.
- Oh, não! Pare! – disse eu me virando para o homem enquanto todos no restaurante viam a minha expressão apavorada.
- Eu te disse tantas vezes que esse garotinho só quer se aproveitar de você! E nada vai me impedir de acabar com isso. Nada!
- Pare agora! - ameacei – Você não pode fazer isso. Não é seu o poder de decidir quem vive... Nã...
Mas ele atirou. Vi toda minha passar em milésimos de segundos. E vi o clarão da bala ir em direção ao homem-garoto. Sem pensar em mais nada, coloquei-me na frente. Senti o ardor da bala em entrando meu peito, mas, ao mesmo tempo, uma sensação de leveza que há muito tempo não sentia. A dor cortava meu ser, enquanto meus sentidos se misturavam com as cores de toda a minha existência.
- Um médico! – gritou o homem-garoto desesperado. – Pelo amor de Deus, um médico!
Os olhares de todos no botequim esfarrapado voltaram-se para mim. Minha energia ia se esgotando, esvoaçando sem que eu pudesse fazer absolutamente nada. Vi o homem-garoto correndo para todos os lados em busca de ajuda enquanto o homem que atirara se punha ajoelhado no chão ensangüentado.
- Por que você fez isso? – ele perguntou.
- Se ainda me ama como diz, deixe o garoto ir embora. A culpa não é dele. De quem é a culpa de nos apaixonarmos pelas pessoas erradas?
- Por que você fez isso? – ele perguntou me sacudindo – Por quê?
- Eu não fiz nada além de viver... E não me arrepender do que fiz...
Quanto mais ele perguntava e me sacudia, menos força eu tinha. Menos meu coração batia. Eu mais parecia uma boneca de pano levada para onde e como quisessem. Antes de desfalecer por completo, porém, ele colocou a arma em sua cabeça e seu sangue misturou-se junto ao meu no chão. Olhei pela última vez para aquele com quem eu passara a vida inteira e também para o homem-garoto desesperado pedindo por uma ajuda. A minha vida tinha sido, no mínimo, esquisita. No chão, meu espelho e meu batom na poça formada pelo perfume de rosas, avermelhado pelo sangue. Olhei novamente as rugas em meu rosto pelo canto do espelhinho rachado. Eram os famosos 15 minutos chegando no momento mais sublime da minha vida. De repente, não sentia mais dor, não sentia mais nada. Olhei pela última vez para o que eu havia me tornado até que meu coração esvoaçou rumo ao infinito.
Pelo pequeno espelhinho, vi um casal de jovens atrás da mesa do restaurante onde eu estava sentada. O olhar apaixonado dos dois me entristeceu num primeiro momento, para depois me alegrar. Em um canto afastado, algumas garotas cochichavam. Mais ao lado, um homem de aparência estranha parecia querer esconder o rosto com o chapéu. Por um momento, tive a impressão que o conhecia, mas meus pensamentos evitavam que eu me fixasse muito tempo em alguma coisa. Estranhamente, eu via minha vida inteira passar pela minha frente. E, da mesma forma, um vazio enorme cortar meu ser. Sentia que nada mais valia a pena. Era como se tudo o que tivesse feito e vivido não tivessem significado algum.
Voltei ao batom e vi que estava borrado. Fui limpando delicadamente as beiradas da boca enquanto me distraía novamente com minhas antigas memórias de jovem. Aproveitei para borrifar um pouco do meu perfume de rosas. Com a minha aparente decadência, eu fazia de tudo para me firmar nos acontecimentos antigos. Veio a lembrança do primeiro beijo, da primeira vez em que tomara chuva em pleno frio, do primeiro filho e das primeiras grandes responsabilidades e brigas. Foi quando ele me veio à mente. Por que, meu Deus, ele era tão jovem? Por que eu haveria de estar sofrendo tanto? Afinal, ele era apenas mais novo do que eu e mais nada. Eram muitos e muitos anos, isso é fato. Mas por que raios eu o encontrara logo no fim da minha vida? Eu pensei que a vida deveria ser mais justa. A felicidade parecia mais valorosa quando eu estava triste.
Enquanto eu me distraía em tantos pensamentos, vi que ele entrava no lugar. Ele era tão belo, tão cheio de vida. Estremeci ao ver ao olhar enfurecido das jovens ao canto do restaurante quando ele me beijou. Tentei disfarçar com um sorriso, mas as lágrimas queriam e faziam de tudo para pular. Coloquei a mão sobre o rosto jovem do homem-garoto. Ele sorriu e soltou um pequeno gemido ao ver meus olhos vermelhos. Fiquei alguns segundos olhando para ele, admirando a vida que eu já não tinha mais. Fui direto ao assunto que me atormentava, afinal, eu nunca havia sido uma mulher de rodeios.
- Me diga, Cristian, por que não te encontrei antes?
- O que há, querida, por que essa pergunta agora?
- Responda-me por qual motivo a vida é tão injusta? Por que ela esperou que eu tivesse filhos e chegasse a velhice antes de te conhecer?
- Não sei... O que importa é que nos amamos. O que te aconteceu? Que perguntas são essas? Você não estava assim da última vez que nos encontramos.
- Aconteceu isso – disse mostrando disfarçadamente para as jovens olhavam para Cristian – Você é muito novo para mim. Ontem mesmo briguei com meu filho por causa disso. Ninguém quer mais me ver. Todos me criticam. O único que me sobrou foi o dinheiro. Até meu marido – e engasgou vendo o olhar de Cristian – até meu ex-marido anda nos ameaçando.
- Essa história de novo logo agora? Deixe de ser boba.
- Como eu queria não te amar...
- Que tal mudarmos de assunto? Esquece isso, vai.
- E se você não me amar como eu acredito? Não acha melhor terminarmos?
- Você está louca, querida? Eu já fiz algo que te decepcionasse antes?
- Não, mas de repente seja melhor eu sair daqui... e ir para casa me entupir dos meus remédios para velhice.
- Para com isso, por favor.
- Você ainda tem muito por viver. Muito...
Não segurei as lágrimas. O homem-garoto tocou meu rosto delicadamente, limpando do rosto a maquiagem desfeita. Ele era, de fato, o homem que eu havia sonhado conhecer toda a minha vida.
- Vamos, limpe esse rosto. Não quero mais ficar aqui. Vamos embora.
Peguei novamente o espelhinho para limpar-me. Novamente tive a impressão de que o homem sentado atrás me conhecia e me fitava. Olhava pra mim como se me conhecesse há séculos. E, quando percebi, já era tarde. Ele levantou-se da cadeira com tanta rapidez que apenas pude ver o brilho da arma reluzindo. Era meu ex-marido.
- Oh, não! Pare! – disse eu me virando para o homem enquanto todos no restaurante viam a minha expressão apavorada.
- Eu te disse tantas vezes que esse garotinho só quer se aproveitar de você! E nada vai me impedir de acabar com isso. Nada!
- Pare agora! - ameacei – Você não pode fazer isso. Não é seu o poder de decidir quem vive... Nã...
Mas ele atirou. Vi toda minha passar em milésimos de segundos. E vi o clarão da bala ir em direção ao homem-garoto. Sem pensar em mais nada, coloquei-me na frente. Senti o ardor da bala em entrando meu peito, mas, ao mesmo tempo, uma sensação de leveza que há muito tempo não sentia. A dor cortava meu ser, enquanto meus sentidos se misturavam com as cores de toda a minha existência.
- Um médico! – gritou o homem-garoto desesperado. – Pelo amor de Deus, um médico!
Os olhares de todos no botequim esfarrapado voltaram-se para mim. Minha energia ia se esgotando, esvoaçando sem que eu pudesse fazer absolutamente nada. Vi o homem-garoto correndo para todos os lados em busca de ajuda enquanto o homem que atirara se punha ajoelhado no chão ensangüentado.
- Por que você fez isso? – ele perguntou.
- Se ainda me ama como diz, deixe o garoto ir embora. A culpa não é dele. De quem é a culpa de nos apaixonarmos pelas pessoas erradas?
- Por que você fez isso? – ele perguntou me sacudindo – Por quê?
- Eu não fiz nada além de viver... E não me arrepender do que fiz...
Quanto mais ele perguntava e me sacudia, menos força eu tinha. Menos meu coração batia. Eu mais parecia uma boneca de pano levada para onde e como quisessem. Antes de desfalecer por completo, porém, ele colocou a arma em sua cabeça e seu sangue misturou-se junto ao meu no chão. Olhei pela última vez para aquele com quem eu passara a vida inteira e também para o homem-garoto desesperado pedindo por uma ajuda. A minha vida tinha sido, no mínimo, esquisita. No chão, meu espelho e meu batom na poça formada pelo perfume de rosas, avermelhado pelo sangue. Olhei novamente as rugas em meu rosto pelo canto do espelhinho rachado. Eram os famosos 15 minutos chegando no momento mais sublime da minha vida. De repente, não sentia mais dor, não sentia mais nada. Olhei pela última vez para o que eu havia me tornado até que meu coração esvoaçou rumo ao infinito.
Rá-tim-búm!
23 anos neste novo ciclo de capricórnio de 2008. Não são mais dois patinhos na lagoa. E, ao mesmo tempo, não são 24. Mais pra vinte do que trinta... Daqui a pouco, mais pra trinta do que vinte. Alguns dirão: “ah, você é uma menina, ainda tem a vida inteira pela frente!”. E eu, na minha pequena existência, direi o quanto 23 anos passaram voando. É como pensar nos grandes gênios da antiguidade, que viveram tanto quanto ou menos ainda do que eu. É como conviver com o grande amigo do homem, o cachorro, durante duas de suas vidas inteiras. São, afinal, 23 anos X 365 dias... 8.395 dias de sonhos, amores, trabalhos, realizações, família.
Posso fechar os olhos e lembrar como se fosse hoje do cheiro das tardes da minha infância, dos almoços em família, da minha cara de felicidade em ver meu pai chegar cansado do trabalho, da minha mãe me vestindo de Chiquinha, das latas de leite condensado atacadas por mim e meu irmão nas tardes de Sessão da Tarde. E de como amei e sempre vou amar essa família Osandón!
Posso lembrar como hoje do primeiro emprego, do primeiro amor de criança, do primeiro dia de faculdade (e do último também), das noites em claro estudando e trabalhando. Posso lembrar como hoje do primeiro dia em que briguei na escola, do primeiro mico, dos dias em que perdi pessoas e animais queridos, das decepções, das alegrias, das tristezas.
E quanto mais caminho mais descubro que tenho que caminhar. E quanto mais sonho mais descubro que tenho que sonhar. E quando menos tenho forças para continuar é aí que decido me levantar – e batalhar, sonhar, amar, trabalhar, correr, querer mais ainda. Nessa longa estrada da vida, subir cada degrau não é uma das coisas mais fáceis do mundo. A gente tropeça, cai, levanta, cai de novo e levanta de novo. E, como uma criança que aprende a caminhar, a gente volta pra estrada. Meio sem jeito, querendo enfiar as mãos no bolso.
Às vezes, há uma pedra. E, às vezes, a gente come a pedra. E ela, na maioria das vezes, desce rasgando, levando tudo o que encontra no caminho. Não importa o quanto doa digeri-la, ela será digerida. E a estrada continuará, como deve ser. E, às vezes, a gente ganha. Ahhh, quando a gente ganha, não há sensação melhor.
Estranho é saber como algumas pessoas se divertem com a infelicidade alheia. Estranho é ver como alguns têm que vender o almoço para comprar a janta. Estranho é ver a miséria humana. Estranho não... eu diria terrível, insano, insensato, doloroso. Porque não dói apenas sentir a fome – sim, isso deve doer muito mais, mas dói ver a fome se manifestando. Não é aquela fome de conhecimento não. É aquela fome da miséria, da miséria da África. A fome do pai que divide o pão para os quatro filhos.
Viver não é fácil... mas quem disse que tem que ser? Parou pra pensar como a vida seria chata se tudo fosse um paraíso? São eles, os problemas, que nos edificam, nos transformam, nos fortalecem. E que, no final da vida, fazem cada cabelo branco valer a pena.
Posso fechar os olhos e lembrar como se fosse hoje do cheiro das tardes da minha infância, dos almoços em família, da minha cara de felicidade em ver meu pai chegar cansado do trabalho, da minha mãe me vestindo de Chiquinha, das latas de leite condensado atacadas por mim e meu irmão nas tardes de Sessão da Tarde. E de como amei e sempre vou amar essa família Osandón!
Posso lembrar como hoje do primeiro emprego, do primeiro amor de criança, do primeiro dia de faculdade (e do último também), das noites em claro estudando e trabalhando. Posso lembrar como hoje do primeiro dia em que briguei na escola, do primeiro mico, dos dias em que perdi pessoas e animais queridos, das decepções, das alegrias, das tristezas.
E quanto mais caminho mais descubro que tenho que caminhar. E quanto mais sonho mais descubro que tenho que sonhar. E quando menos tenho forças para continuar é aí que decido me levantar – e batalhar, sonhar, amar, trabalhar, correr, querer mais ainda. Nessa longa estrada da vida, subir cada degrau não é uma das coisas mais fáceis do mundo. A gente tropeça, cai, levanta, cai de novo e levanta de novo. E, como uma criança que aprende a caminhar, a gente volta pra estrada. Meio sem jeito, querendo enfiar as mãos no bolso.
Às vezes, há uma pedra. E, às vezes, a gente come a pedra. E ela, na maioria das vezes, desce rasgando, levando tudo o que encontra no caminho. Não importa o quanto doa digeri-la, ela será digerida. E a estrada continuará, como deve ser. E, às vezes, a gente ganha. Ahhh, quando a gente ganha, não há sensação melhor.
Estranho é saber como algumas pessoas se divertem com a infelicidade alheia. Estranho é ver como alguns têm que vender o almoço para comprar a janta. Estranho é ver a miséria humana. Estranho não... eu diria terrível, insano, insensato, doloroso. Porque não dói apenas sentir a fome – sim, isso deve doer muito mais, mas dói ver a fome se manifestando. Não é aquela fome de conhecimento não. É aquela fome da miséria, da miséria da África. A fome do pai que divide o pão para os quatro filhos.
Viver não é fácil... mas quem disse que tem que ser? Parou pra pensar como a vida seria chata se tudo fosse um paraíso? São eles, os problemas, que nos edificam, nos transformam, nos fortalecem. E que, no final da vida, fazem cada cabelo branco valer a pena.
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
Aqueles olhos amarelos

Fechei os olhos e fui caminhando lentamente pelos ladrilhos da rua até esbarrar na parede do enorme edifício. Eu gostava de imaginar como seria se eu tivesse nascido cego. Queria perceber as coisas de forma diferente e não poder enxergar os defeitos exteriores das pessoas. O mais engraçado de tudo isso era que todos adoravam os meus olhos amarelos. Sempre me perguntavam de quem eu havia herdado esses olhos e eu nunca pudera responder. Olhei a minha sombra na parede, formada pela luz do fim da tarde. As minhas perninhas tortas ficavam ainda mais desengonçadas na minha sombra. Sentei-me com dificuldade, afinal eu havia estado praticamente a tarde inteira em pé, ao lado dos carros.
Há alguns metros de mim, uma mulher se esgueirava entre os automóveis, zanzando com uma menina de uns três anos nos braços. A criança sorriu e balançou as pequenas mãozinhas para mim. Mandei-lhe um beijo e ela escondeu-se envergonhada na blusa da mulher. O sinaleiro abriu. Os carros passaram. Eu imaginava como eram todas as vidas que se passavam pela minha frente a cada sinal que se abria. A mulher veio resmungando até mim. Ela olhou e reclamou: "seu moleque imprestável! Mal agüenta ficar em pé. Pelo menos essas suas pernas malditas conseguem me trazer mais dinheiro do que eu com a Laura nos braços. Vê se fica bom longo porque daqui a pouco anoitece e a gente tem que conseguir mais dinheiro".
Abaixei a cabeça, envergonhado. No alto dos meus dez anos de idade, seria muito vergonhoso deixar as lágrimas caírem. Ela fazia questão de me dizer que havia me achado no lixo, no meu primeiro ano de vida e que minha mãe verdadeira havia feito isto por causa da minha deficiência. Já a Laura ficaria conosco por alguns dias, pois uma amiga a tinha "emprestado" para conseguir ficar em paz por um tempo e ainda conseguir um dinheiro com isso.
O sinal fechou. Ela voltou para lá, como uma minhoquinha, desfilando entre os carros e balançando a caneca. Eu estava torcendo para que a noite demorasse a cair e a mulher ficasse até mais tarde pedindo dinheiro, pois nesse dia a loja de brinquedos da esquina do sinal inauguraria a sua árvore de natal. As luzes de natal pareciam ter um brilho especial, algo que eu nunca iria conseguir compreender na minha vida. Levantei-me com dificuldade por causa da dor nas pernas. Estava decidido a entrar na loja custasse o que fosse. Sempre me seguravam na porta, achando que eu iria roubar algo. Como, se eu mal podia correr? Enchi o peito de ar e segui andando. Aproveitei a distração dos guardas para entrar pelo canto da porta. Comecei a passear pelas prateleiras, maravilhado com cada um daqueles brinquedos. E uma dor cortou meu ser. Quem eu era? Será que algum dia teria algum desses brinquedos?
Mesmo apesar de tão novo, eu era lúcido o suficiente para saber que as minhas chances de algum dia poder ter um daqueles brinquedos ou mesmo de vir a dar um daqueles para meu filho era muito pequena. Abaixei os olhos novamente, passando a mão pelo pequeno boneco. De repente, ouvi uns passinhos apressados, de um menino que vinha correndo em minha direção: "é esse boneco, mãe! É esse que eu quero de Natal!". A felicidade do menino era tamanha que cheguei a me comover. E ele olhou nos meus olhos. Tive um susto muito grande. Era como olhar para um irmão mais novo. Aqueles mesmos olhos. Aquela mesma expressão de medo.
O menino ficou ali, parado, olhando para mim. A mãe dele veio logo atrás, procurar o tal boneco. E o susto se espalhou entre nós três. Seis olhinhos iguais se analisando, se olhando. Ela levou as mãos à boca e se emocionou, afinal, ela, muito mais do que eu sabia bem quem eu era. Talvez nunca devesse tê-la encontrado, talvez eu nunca descobrisse quem era ela se não fossem esses olhos. Logo, caí na realidade, com minha madrasta me puxando para fora da loja. O pavor nos olhos dela, ao ver a outra mulher e o menino, foram os iguais aos nossos, pouco antes que ela entrasse lá para me buscar. Os segundos pareceram durar minutos, até que um guarda puxou não somente a mim, mas também minha madrasta e Laura, que ainda estava em seu colo.
A mulher dos olhos amarelos levantou uma das mãos e pediu ao guarda que nos soltasse. As lágrimas começaram a cair, como larvas de um vulcão que acabava de explodir. Olhos que choravam gotas de calor. Ninguém entendia nada, mas nós sim. Poderíamos dizer muitas palavras, mas nada poderia expressar aquele momento. Minha madrasta continuou a me puxar e os meus olhos encontraram os da mulher até que eu não pudesse mais vê-la. Nesse momento, pouco me importavam os tapas que eu estava ganhando de minha madrasta. Mais nada me importava.
Sentei-me novamente recostado no muro, desiludido, irritado, comovido, chocado... As reações vinham lentas, os pensamentos se embaralhavam. Senti aqueles mesmos passinhos vindo na minha direção e duas mãozinhas que me estendiam um brinquedo, o mesmo que eu acabara de ver na loja. Levantei o rosto encharcado para ver os olhos do menino. Ele passou as mãos pelo meu cabelo e disse que o boneco era meu. As lágrimas desciam sem distinção, lavando tudo o que existia dentro de mim.
O menino foi se distanciando até encontrar a mulher de olhos amarelos, que também chorava na esquina. E eu os vi ir embora. Simples e puramente, irem embora. Não tive um movimento. Nada, nada. Apenas fiquei ali, sem respostas, chorando escondido. Respostas que a vida acabava de me oferecer de forma diferente. Talvez algum dia eu me arrependa... nunca mais vi aqueles olhos amarelos... nunca mais...
Há alguns metros de mim, uma mulher se esgueirava entre os automóveis, zanzando com uma menina de uns três anos nos braços. A criança sorriu e balançou as pequenas mãozinhas para mim. Mandei-lhe um beijo e ela escondeu-se envergonhada na blusa da mulher. O sinaleiro abriu. Os carros passaram. Eu imaginava como eram todas as vidas que se passavam pela minha frente a cada sinal que se abria. A mulher veio resmungando até mim. Ela olhou e reclamou: "seu moleque imprestável! Mal agüenta ficar em pé. Pelo menos essas suas pernas malditas conseguem me trazer mais dinheiro do que eu com a Laura nos braços. Vê se fica bom longo porque daqui a pouco anoitece e a gente tem que conseguir mais dinheiro".
Abaixei a cabeça, envergonhado. No alto dos meus dez anos de idade, seria muito vergonhoso deixar as lágrimas caírem. Ela fazia questão de me dizer que havia me achado no lixo, no meu primeiro ano de vida e que minha mãe verdadeira havia feito isto por causa da minha deficiência. Já a Laura ficaria conosco por alguns dias, pois uma amiga a tinha "emprestado" para conseguir ficar em paz por um tempo e ainda conseguir um dinheiro com isso.
O sinal fechou. Ela voltou para lá, como uma minhoquinha, desfilando entre os carros e balançando a caneca. Eu estava torcendo para que a noite demorasse a cair e a mulher ficasse até mais tarde pedindo dinheiro, pois nesse dia a loja de brinquedos da esquina do sinal inauguraria a sua árvore de natal. As luzes de natal pareciam ter um brilho especial, algo que eu nunca iria conseguir compreender na minha vida. Levantei-me com dificuldade por causa da dor nas pernas. Estava decidido a entrar na loja custasse o que fosse. Sempre me seguravam na porta, achando que eu iria roubar algo. Como, se eu mal podia correr? Enchi o peito de ar e segui andando. Aproveitei a distração dos guardas para entrar pelo canto da porta. Comecei a passear pelas prateleiras, maravilhado com cada um daqueles brinquedos. E uma dor cortou meu ser. Quem eu era? Será que algum dia teria algum desses brinquedos?
Mesmo apesar de tão novo, eu era lúcido o suficiente para saber que as minhas chances de algum dia poder ter um daqueles brinquedos ou mesmo de vir a dar um daqueles para meu filho era muito pequena. Abaixei os olhos novamente, passando a mão pelo pequeno boneco. De repente, ouvi uns passinhos apressados, de um menino que vinha correndo em minha direção: "é esse boneco, mãe! É esse que eu quero de Natal!". A felicidade do menino era tamanha que cheguei a me comover. E ele olhou nos meus olhos. Tive um susto muito grande. Era como olhar para um irmão mais novo. Aqueles mesmos olhos. Aquela mesma expressão de medo.
O menino ficou ali, parado, olhando para mim. A mãe dele veio logo atrás, procurar o tal boneco. E o susto se espalhou entre nós três. Seis olhinhos iguais se analisando, se olhando. Ela levou as mãos à boca e se emocionou, afinal, ela, muito mais do que eu sabia bem quem eu era. Talvez nunca devesse tê-la encontrado, talvez eu nunca descobrisse quem era ela se não fossem esses olhos. Logo, caí na realidade, com minha madrasta me puxando para fora da loja. O pavor nos olhos dela, ao ver a outra mulher e o menino, foram os iguais aos nossos, pouco antes que ela entrasse lá para me buscar. Os segundos pareceram durar minutos, até que um guarda puxou não somente a mim, mas também minha madrasta e Laura, que ainda estava em seu colo.
A mulher dos olhos amarelos levantou uma das mãos e pediu ao guarda que nos soltasse. As lágrimas começaram a cair, como larvas de um vulcão que acabava de explodir. Olhos que choravam gotas de calor. Ninguém entendia nada, mas nós sim. Poderíamos dizer muitas palavras, mas nada poderia expressar aquele momento. Minha madrasta continuou a me puxar e os meus olhos encontraram os da mulher até que eu não pudesse mais vê-la. Nesse momento, pouco me importavam os tapas que eu estava ganhando de minha madrasta. Mais nada me importava.
Sentei-me novamente recostado no muro, desiludido, irritado, comovido, chocado... As reações vinham lentas, os pensamentos se embaralhavam. Senti aqueles mesmos passinhos vindo na minha direção e duas mãozinhas que me estendiam um brinquedo, o mesmo que eu acabara de ver na loja. Levantei o rosto encharcado para ver os olhos do menino. Ele passou as mãos pelo meu cabelo e disse que o boneco era meu. As lágrimas desciam sem distinção, lavando tudo o que existia dentro de mim.
O menino foi se distanciando até encontrar a mulher de olhos amarelos, que também chorava na esquina. E eu os vi ir embora. Simples e puramente, irem embora. Não tive um movimento. Nada, nada. Apenas fiquei ali, sem respostas, chorando escondido. Respostas que a vida acabava de me oferecer de forma diferente. Talvez algum dia eu me arrependa... nunca mais vi aqueles olhos amarelos... nunca mais...
Assinar:
Postagens (Atom)