Eu vinha andando cansada pela terra seca. Já não tinha mais noção de tempo e de espaço. A morte parecia me sorrir quando avistei uma casa logo à frente. Eu não tinha mais forças. Sentia como se meu corpo inteiro doesse. Acabei por deitar-me no chão esquentada pelo sol. Minhas patas estavam ressecadas, não conseguia mais abrir os olhos.
Percebi que os donos da casa estavam chegando. Olhavam-me de longe receosos. Meus pêlos amarronzados estavam empoeirados, envelhecidos. Tive medo de que me matassem, mas não conseguia me mover. Se eu pudesse falar, acho que apenas pediria piedade, amor. A fome era grande, a sede maior ainda. Passados alguns minutos, me trouxeram água e comida. Era esquisito para mim. Não tive dúvidas em comer e beber. A sensação era de alívio. Fiquei simpatizada a essa família. Fui me aproximando como quem não queria nada. O sol ainda estava forte. Resolvi me deitar novamente. Não tinha sequer forças para latir, nem mesmo chorar.
Aos poucos as imagens de minha vida passaram por minha cabeça em fração de segundos, mas eram mais de cinco séculos... Lembrei de como tudo começara. Lembrei daquele maldito dia. Era 1517, na Europa. Uma época em que a magia e a bruxaria estavam em seu apogeu. Era uma pobre camponesa sem família. Tinha 27 anos e muita vida por viver. Uma vida que mudou radicalmente. Um dia, fui violentada por três soldados. Dentro de mim, havia uma mistura de raiva e de ódio. Resolvi procurar a justiça da época. Mas, simplesmente me disseram que isso era normal. Eu não achava isso normal e eles haveriam de pagar por isso.
Pensei durante dias em uma vingança. Lembrei de uma senhora onde eu morava conhecida como bruxa. Fui até lá. Chegando a casa dela, me assustei, pois esperava uma mulher feia e rançosa. Mas não era. Além disso, acolheu-me bem, com carinho. Ela explicou que me ajudaria, mas que um dia precisaria de mim. Disse-lhe que faria qualquer coisa por vingança. Então, ela pegou um pedaço de pão e colocou algo dentro parecido com uma pimenta. Em seguida espetou agulhas e embrulhou em um pano. Explicou-me que eu deveria enterrar na floresta, chamar o espírito da natureza e mentalizar os soldados antes do sol nascer. A velha disse, ainda, que eu era responsável por isso.
Três dias depois, fiquei sabendo que dois dos soldados haviam brigado e se matado e outro enlouquecido e se jogado do penhasco. Fiquei feliz com o resultado e voltei a casa dela. Pedi para ser bruxa também. Ela explicou que isso me implicaria muitas coisas. Eu teria que fazer pactos com espíritos das profundezas, mas possuiria tudo o que quisesse. Tudo, menos paz de espírito. Aceitei, pois não tinha nada a perder. A vida não me reservaria maiores surpresas como uma camponesa.
A noite de minha iniciação chegara. Acredito que estávamos em um local fechado, abaixo da casa da bruxa. Havia mais de dez mulheres. Tive de fazer um pacto de ajuda mútua e todas beberam misturas estranhas. Vi que dentro do caldeirão existiam ossos humanos, sangue de morcego e de todas as bruxas. Tive de lutar para não vomitar. Elas pareciam loucas, falavam línguas estranhas e clamavam por seres estranhos. Agradeci quando chegou o fim da cerimônia. Estava sentindo um frio estranho, um frio de morte. Vi velas, crucifixos e um bicho morto. Acabei adormecendo ali mesmo. Quando acordei não vi mais ninguém além da anciã...
Passaram três anos e sete dias desde o dia da cerimônia. Eu já havia aprendido o que ela havia me ensinado. A velha bruxa disse que estava morrendo e que eu deveria fazer o mesmo que ela fizera antes de morrer e que se possível passasse os meus conhecimentos para uma mulher virgem. Pediu que eu nunca revelasse o local onde fosse enterrada. No dia do enterro, que seria em uma caverna na floresta, reencontrei todas as bruxas do dia de minha iniciação. Elas estavam felizes. A grande bruxa foi enterrada viva, mas o corpo apodreceu rapidamente e um cheiro ruim invadiu o ambiente. Seres estranhos parecidos com lobisomens apareceram. As bruxas arrancaram o coração de um homem e todas tiveram que comer. Percebi que o último pedaço fora entregue a um animal com feições diferentes, que tinha raciocínio. Descobri depois que era o grande mestre. Um bruxo já morto que conseguia se materializar. Novamente, voltei a me sentir mal. Mas logo terminava a cerimônia.
Anos se passaram. Mudei-me para uma outra cidade. As pessoas me procuravam e me pagavam bem. Muitos espíritos me perseguiam em meio a tudo isso. Para me proteger, coloquei o espírito de dois dos soldados em cachorros. Um dia, houve a caça às bruxas. Fui apedrejada e queimada viva. Passei longos séculos sofrendo em outra dimensão, onde não conseguia fazer nada porque era perseguida por espíritos que eu havia atormentado. Passei séculos clamando por perdão. Foi uma das épocas mais difíceis de minha vida. Eu nunca havia acreditado em Deus, mas sabia que já era hora de mudar isso. Do contrário, não sairia dali. As forças superiores me ouviram e decidiram me oferecer uma chance. Disse que aceitaria qualquer coisa para sair dessa situação.
Passaram sete anos em que fui preparada para retornar como cachorro, em vistas ao o que eu fizera com os soldados. Sofri muito nesse tempo e tive de passar por coisas inimagináveis. Literalmente, tive de agüentar a vida como um cachorro de rua... e perder meus filhotes. Lembro que quando era bruxa eu queria ter filhos, mas não podia por ser o que eu era. Sofri, passei frio e fome. Nunca me revoltei, mas sempre questionei isso. Questionei se eu havia cometido tantos erros para sofrer tanto.
Até que, um dia, resolveram me oferecer luz e me mandaram por esse caminho empoeirado...
Agora estou aqui, perdida e confusa...
Percebi que estava anoitecendo e era hora de procurar algum lugar. Comecei a aproximar-me da casa e da família. Passaram alguns dias e eles me ofereceram abrigo, comida e água. Eu já estava ficando valente, afugentando quem não pertencia à casa. Eu não sabia como retribuir o carinho – era como se eu fosse novamente um ser humano. A luz e o amor começaram a me invadir. Nunca acreditei na existência de tais sentimentos.
Era estranho receber tanto amor sem oferecer nada em troca, absolutamente nada. Uma revolução acontecia dentro de mim. Eu, que durante séculos só conhecera o ódio, começava a conhecer o amor em dias. Ofereciam-me amor sem nada em troca. Nada em troca... De uma forma pura, simples, inocente, de um jeito que eu nunca havia imaginado. Durante cinco séculos, nada me tocara de semelhante maneira. Essa era a chance para a minha mudança. Essa era a chance para o recomeço. Minha vida poderia acabar nesse dia, mas tudo o que aprendera em tão pouco tempo havia sido suficiente para acreditar. Ofereceram-me amor sem nada em troca...
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
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